O que não é necessário na Educação Infantil?

Muito se discute sobre os rumos da Educação no país. De fato, há muito o que se discutir. E em momentos como os que estamos passando, nos deparamos com um questionamento poderoso. O que é essencial na Escola de Infâncias? Hoje gostaria de compartilhar com vocês algumas coisas que acredito NÃO serem fundamentais. Que NÃO constituem a essência daquilo que vêm sendo construído, ao longo dos anos, através de muita luta, pesquisa e empenho nas escolas de Educação Infantil.

A escola precisou adaptar-se muito rapidamente. Saímos do espaço escolar, quase que sem rumo, não sabíamos o que haveria de vir. Veio, então, a necessidade do ensino remoto. Afinal, faz parte do papel da escola dentro de sua comunidade, assegurar a saúde psíquica de suas crianças. E saber que a professora e os colegas de classe estão vivos e bem, é de fato, essencial. Mas o que não é fundamental é recuperar o tempo perdido. Porque, embora pareça, não há tempo perdido. As crianças seguem aprendendo e se desenvolvendo. Seguem internalizando formas de viver em família, de adaptação, de gerir emoções, de existir.

Não é fundamental estabeler número mínimo de atividades diárias. Mas é fundamental pensar na qualidade daquilo que estamos entregando às famílias. Pois a situação que vivemos é excepcional. Então, como esperar que tudo seja igual? Estamos adentrando o ambiente familiar como nunca. O que estamos fazendo para respeitar este espaço? Para respeitar os diversos contextos familiares, as particularidades, as emoções. O que estamos fazendo para acolher as angústias dessas famílias? Por este motivo, é essencial pensarmos o papel da escola, e talvez reinventá-lo, ressignificá-lo.

Não são necessários longos períodos em frente à tela. Talvez, aulas com horário extendido, encontros online demorados podem parecer efetivos e de alguma forma, produtivos. Mas, a que custo? É essencial respeitar as diretrizes dadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria em relação a tempo de tela. Também entender que, principalmente na Educação Infantil, quantidade quase nunca é qualidade. E um vídeo com provocações e propostas a serem feitos no tempo disponível da família, pode ser mais efetivo do que prendê-los durante 1, 2, 3 em frente ao celular ou computador.

Não são necessárias também, atividades elaboradas, complicadas. Nós apenas temos uma demanda a atender: A de crianças e suas famílias. E elas, já têm sobre os ombros, inúmeras sobrecargas. Não é papel da escola depositar algum tipo de esperança no “sucesso” do término deste ano nas família que atende. Possivelmente, nem todas as habilidades e competências serão trabalhadas largamente. Talvez alguns avanços fiquem adormecidos. Mas, jamais devemos considerar a escola único espaço de aprendizagem. Aprender está intrínsecamente ligado ao existir para a criança em seu ambiente. Tudo o que ela vive, toca, sente, enxerga, é para ela, uma forma sistematizada de entender o mundo e a ordem das coisas.

Quero terminar esta reflexão dizendo que mais do que essencial, nossa missão está em acreditar e assegurar uma infância saudável, segura, pacífica e livre aos nossos pequenos. Para isto, não são necessárias propostas mirabolantes, páginas e páginas de atividades feitas, explicações diversas sobre conhecimentos julgados necessários à idade. Deixemos as crianças serem crianças. Em meio a este tempo sombrio, talvez este seja o ato mais empático que podemos ambicionar. Dêem vozes às infâncias!

Olhar para a infância

O que enxergamos quando observamos uma criança? Aonde está nossa atenção ao acompanhá-la? Que anotações mentais fazemos ao observar? Estamos atentos à infância? Estamos ouvindo nossos alunos? Estamos entendendo as suas necessidades e os auxiliando a suprí-las?


Estas são questões que todo educador da infância deve se fazer, quase como um ritual. A sociologia e a filosofia há muito nos mostra que a modernidade trouxe uma forma de viver e fazer as coisas de modo automático. Tratamos tudo quanto possível de forma mecânica. Tem que ser rápido e prático.

Mas a infância exige demora. Demora no olhar, demora na escuta, demora ao apreciar. A infância exige tempo, paciência. A infância quer de nós corpo e alma, ela quer nosso olhar e nossa mente a

tentos, acompanhando as pequenas nuances que fazem dela maravilhosa. A infância não tem pressa. A infância quer estabelecer diálogos sobre a joaninha vista na pracinha, sobre o universo, sobre dinossauros. A infância deseja ser simples.

A infância é tempo de descoberta. E como descobrir se estamos sempre com pressa?


A escola da infância precisa entender o tempo da infância. Há uma escuta muito esquecida em alguns lugares, mas essencial para um desenvolvimento saudável e pacífico. A escuta das necessidades? Estamos dando voz às necessidades de nossas crianças? Estamos entendendo o que a infância pede?

Há dias em que a infância pede paciência, pois ela está passando por processos internos de regulação das emoções. Há dias em que a infância pede calma, afinal, não se fazem jardins sem calma. Há dias em que a infância pede pra correr livre, desempedida, feliz. Mas absolutamente todos os dias a infância pede para ser escutada.


Este útimo parágrafo, dedicarei ao educador. Antes de pensar todas essas questões aqui colocadas, gostaria que você refletisse sobre esta, primordial. Você tem se escutado? Que vozes ocupam a sua cabeça?

É necessário dar tempo ao coração e à alma, alimentá-los as vezes com aquilo que pedem. Seja acolhedor frente às suas necessidades. Você tem necessidade de afeto? De amor? De descobrir, de ouvir, de se expressar? Pois, permita-se. Você tem necessidade de falar ou de calar. De um tempo a sós ou do amparo.

Seja lá quais são as suas necessidades, sejam quais forem os pedidos, as súplicas da sua alma, educador, saiba que para ter a capacidade de ouvir e entender o outro, é preciso antes, ouvir e entender a si mesmo.


Desejo que todos os que me leem, cuidem de si mesmos e depois cuidem de suas crianças. As escuta, certamente nos levará a um lugar melhor.

Keila Costa

Diálogo e política na escola

Não há Vagas


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

— porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Ferreira Gullar

Inicio esta reflexão com uma poesia de Ferreira Gullar para falar de um tema delicado. Um de meus maiores anseios desde quando decidi que queria ser educadora, e que perdura até hoje, era poder encontrar um meio democrática e coerente de falar sobre politica com meus alunos e conscientizá-los de seu papel como cidadãos. De uma forma geral, este desejo surgiu no Ensino Médio, quando tive maior contato com o famigerado partidarismo que penetra as escolas públicas em todo o país. A forma como a política era abordada na escola, me chava a atenção e de certa forma, me revoltava. Era como se o professor usasse seu lugar de destaque, diante de sua platéia, para enaltecer determinado partido ou ideologia que lhe parecesse adequada que seus alunos acreditassem. Mas este poema, me surgiu no 8º ano do Ensino Fundamental. Na época recebemos a simples missão de decorar um poema para recitá-lo à turma, e eu escolhi este. Então, eu diria que aquele anseio que citei lá no começo, na verdade, surgiu um pouco antes, e este poema faz parte dessa história.


Está claro para mim que nosso país vive de crises políticas já há muito tempo. Mas mais do que isso, atravessamos uma crise política. Primeiro porque ainda não sabemos muito bem o que é política. Por isso, evita-se qualquer conversa sobre o conceito. Dominamos o discurso do partido, mas o discurso da cidadania, bem, este fica pra mais tarde. E como lidar com esta realidade, sendo nós, educadores?
Acredito piamente no diálogo. Nele, tudo tem começo. Se queremos abordar determinado tema, qualquer que seja, abrimos diálogo e partimos dele. Sobre conhecimentos prévios, C. Coll (1990) nos diz que, “quando um aluno enfrenta um novo conteúdo a ser aprendido, sempre o faz com uma série de conceitos, concepções, representações e conhecimentos adquiridos no decorrer de suas experiências anteriores, que utiliza como instrumento de leitura e interpretação, e que determinam em boa parte as informações que selecionará, como as organizará e que tipo de relações estabelecerá entre elas.”


Então, para iniciarmos um processo de conscientização, é preciso enveredar pelos caminhos do diálogo. E para isto, é preciso ouvir sem preconceitos e estar aberto, pois muitos alunos, certamente chegarão com uma fala político-partidária reproduzida de seus pais. Mas, abrir este espaço, é essencial se queremos nos aproximar da realidade de nossos alunos, partir do repertório deles, saber o que eles pensam, mesmo que seja fruto do que pensam os seus pais.
É essencial anularmos completamente o pensamento de defesa a um partido e seus ideais e nos abrigarmos na política em seu todo. Desta forma, a consciencia e, por conseguinte, a criticidade, surgirá da análise de ações políticas e não de ideologias. Não é preciso defender políticos. É preciso defender o bem comum. Desta forma, convidamos nossos alunos a analisar situações, condutas e prática sob uma ótica apenas: a da democracia. Isto que acontece, defende ou favorece a democracia? Esta medida tomada, esta fala de determinado político, fere a constituição? Daí, não interessa que partido esta pessoa defende, se vai contra aquilo que é correto diante desta ótica, ela deve ser criticada e cobrada, principalmente.
O trunfo principal de nossa profissão deve ser educar crianças para a reflexão. E como consciencia e criticidade surgirão, se não pusermos política em pauta? É preciso, sem dúvida alguma, começar a desfazer mitos de senso comum. Só constuiremos um país melhor, se ensinarmos nossos alunos a pensarem por si mesmos e não por seus políticos. Grande parte de nossos problemas se originam do fato de muitos de nossos eleitores adotarem políticos a despeito de seus crimes. Quebrar este ciclo é urgente. É necessário educar para o pensar e não mais para reproduzir.
Sugiro iniciarmos esta mudança, com pequenas discussões abertas com coordenações e direções de escolas.

Sabendo que, como já foi dito, o diálogo é a porta de entrada, inclusive para as mudanças que tanto queremos. Então, o que estamos esperando para estabelecer um diálogo saudável? Estamos prontos para este diálogo? Estamos prontos para abandonarmos nossos políticos de estimação? É preciso maturidade e muito reflexão para se fazer educação. E então, vamos dialogar?

Como enxergamos nossos alunos

A forma como entramos em sala de aula, no inicio do ano e a cada dia subsequencialmente, é um ponto importante a ser considerado. Há uma discussão muito válida entre educadores e pesquisadores, que embora muito abrangente, desejo apenas pincelar com algumas palavras. E trata-se especificamente da forma como enxergamos nossos alunos. Segundo Isabel Solé (1997), professora do departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha: ” […] O que os leva [os professores] a formar esta ou aquela representação de um determinado aluno é a sua maior ou menor proximidade de sua ‘imagem de aluno ideal’, variável para cada professor, mas com algumas características majoritariamente compartilhadas: respeito pelas normas estabelecidas, interesse pelo trabalho, constância, esforço, participação.”

Temos, então, uma clara visão do que espera o professor ao adentrar o ambiente de sala de aula. Em nossos corredores, as crianças no perfil que Solé descreve, são geralmente muito elogiadas. Tomadas incessantemente por exemplo. Enquanto que, as crianças que não recebem as informações que damos no quadro de forma passiva, não são tão bem vistas assim. Alunos questionadores, agitados, “fora do padrão”, alunos com TEA, TDAH, Dislexia e tantos outros transtornos, alunos diferentes de algum modo, menos certinhos, menos encaixados no nosso padrão, sofrem rotulações o tempo inteiro. As vezes, sem perceber, ele se torna o “bagunceiro da sala”, o “tímido da sala”, e de repente a frase “ele é assim mesmo” se torna comum na rotina dos professores e dos alunos. Mas isso de fato é aceitável? Coll e Miras (1990), afirmam, resumidamente, que há grandes chances de nossas expectativas se tornarem filtros e, mais além, ditarem o comportamento de nossos alunos. E qual é o papel intrínseco do professor neste cenário?


É preciso reconhecer a subjetividade de cada criança. Certa vez, Rubem Alves disse: “Acontece que o discurso (entre eles o científico) possuem um enorme poder mágico para fazer com que as coisas que não ocorreriam, se houvesse silêncio, ocorram, em decorrência da fala”. É essencial reavaliar de forma profunda a cotidianidade dentro de nossa sala de aula. E para reavaliar, o diálogo é imprescindível. Dentro dos diálogos banais é que mora a verdadeira essência daquilo que acreditamos e da forma como enxergamos a escola e a criança. Frequentemente, é possível ouvir, em uma conversa informal, dentro de sala de aula, sobre o mal comportamento de um determinado aluno. Muitas vezes, este aluno está escutando tudo o que se fala, sem que os adultos percebam. É preciso cuidado, não somente na forma de ensinar, mas na forma de enxergar cada aluno. Porque, inúmeras vezes, nosso discurso de educação afetiva e sócio-emocional e de acolhimento de diferenças, muito se distancia da nossa prática que segrega os alunos “menos dedicados”, simplesmente porque não se encaixam em algum tipo de padrão previamente estabelecido. É imperioso estabelecer um diálogo sincero com o aluno, procurar desvendar a sua mente que trabalha de uma forma diferente da que esperamos. Respeitá-lo acima de tudo. Só sob uma autoanálise profunda, é que o poder mágico da fala entrará em ação e transformará este cenário.


Howard Gardner, junto de outros inúmeros pesquisadores de Harvard, materializaram uma teoria que hoje é essencial para o entendimento de inteligências e, consequentemente, sobre a forma como aprendemos. Se estamos tão familiarizados com o fato de que cada criança é única no mundo, precisamos aceitar e acolher essa subjetividade para além de nossos pré conceitos. Não é possível ter uma sala de alunos passivos e obedientes às normas 100% do tempo. Precisamos reavaliar nossos conceitos de inteligência, que para Gardner, significa muito mais desenvolver um trabalho ou produto pertinente à comunidade e cultura que circundam a vida escolar do sujeito, do que propriamente responder testes de linguagem e lógico-matemáticos com exatidão e rapidez. Uma criança vai arriscar-se, vai conversar, vai questionar, vai distrair-se se a sua linguagem pouco se aproxima da realidade dela ou se em sua aula, ela precisar ficar 90% do tempo ouvindo sobre conceitos abstratos e respondendo a perguntas para fins de memorização.


Acolhimento e compreensão serão sempre palavras-chave em qualquer estágio da educação. Não é possível educar sem aceitar diferenças, sem diálogo. Paulo Freire evidencia isto em sua fala:
[…] o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se
solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser
transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar
idéias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de
idéias a serem consumidas pelos permutantes. (FREIRE, 2005, p. 91).

Volta à rotina escola pós quarentena

O fim deste tempo sombrio que passamos tem data pra acabar, certamente. E depois de tanto tempo confinados e amedrontados, com certeza, respiraremos mais aliviados quando finalmente sairmos de casa para viver nossas vidas normalmente. Mas é preciso ter em mente de que não seremos as mesmas pessoas de antes. Mais importante ainda: as crianças não serão as mesmas. Eu quero dar a devida atenção a uma classe de pessoas que está construindo dentro de si caminhos para o autocontrole e estão descobrindo como lidar com emoções: as crianças.

É um momento, sobretudo, delicado. Precisamos olhar com empatia e compreensão para nossos pequenos. Afinal de contas, foram dias intensos. Um monstro os colocou pra dentro de casa, e lhes tirou o convívio com os amigos, tios, padrinhos, avós. Lhes tirou o passeio no shopping ou no parque, a praça, o ar livre. E no meio disso tudo, pais preocupados, 24h em casa, mas nem sempre com tempo pra brincar e nem sempre com paciência também, porque estão em homeoffice ou simplesmente porque a casa precisa estar minimamente organizada. Imagine a trama de conxexões que esta criança formou ao ouvir uma conversa por telefone, uma notícia no jornal, e até, porque não, uma briga em casa. Agora, junte 20 dessas crianças, e coloque-as numa sala de aula.

É preciso enxergá-las de fato. Acho que existe uma palavra pra este momento que passaremos: acolhida. A escola precisa ser um lugar de acolhimento, sobretudo. Sairemos deste ano com prejuízos, é inevitável. Mas estabelecer nossas prioridades agora, é fundamental para o futuro dessas crianças na escola e na vida. Do que precisamos? Recuperar todo o tempo perdido longe da escola a qualquer custo, sobrecarregando crianças que emocionalmente já estão sobrecarregadas? Ou acolher e cuidar, para que elas possam aprender a gerir todas as emoções e informações de forma saudável e poderem prosseguir em paz? A resposta está aqui: trabalhamos com números ou com pessoas?

Keila Vieira

Educação, quem faz?

Citação retirada do Livro Conversas com quem gosta de Ensinar, de Rubem Alves.

Rubem Alves faz menção no livro Conversas com quem gosta de ensinar, de uma citação que nos leva a refletir sobre um âmbito da educação não muito discutido em nossas escolas e comunidade em geral.


” […] E ali descobrimos que “cada pessoa que entra em contato com a criança é um professor que incessantemente lhe descreve o mundo, até o momento em que a criança é capaz de perceber o mundo tal como foi descrito” (Carlos Castaneda, Jouney to Ixtlan, New Your, Simon e Schuster, 1972, p. 8).


Defendemos uma educação sócio-construtivista, permeada de ilustrações de como uma criança constrói entendimentos do mundo ao seu redor e de si mesmo através do contato com iguais: crianças da mesma idade e de idades variadas. Nela, o professor tem papel chave, indispensável, pois é o guia na busca incessante e sedenta pelo sentido da vida e das coisas. É evidente que não venho refutar esta ideia, mas sim refletir sobre a vida escolar e o desenvolvimento da criança.

Rubem Alves, neste livro, faz menção da palavra educador e o brinda com uma definição bela e, profundamente humana. De fato, educar é um ato de paixão.
Aquele que educa, procura (ou pelo menos espera-se que) aprofundar-se a cada dia em sua área de atuação, buscando subsídios para evoluir em suas práticas docentes. É indiscutível que educar é laborioso, exige muita reflexão, superação de barreias físicas, emocionais, psíquicas, etc. Exige estudo, discussão, abandono de ideias do senso comum, evolução, enfim.

É possível enxergar o papel do professor até mesmo em pequenas conversas do cotidiano, no acolhimento diante de um machucado ou desentendimento, de um comportamento descortês ou até mesmo desrespeitoso entre colegas ou entre aluno e adulto. Nas inúmeras tentativas de apresentar um conteúdo oportunizando a compreensão de todos, a atenção especial aos alunos que demandam tal atitude. Na avaliação constante e incansável de seu trabalho e do desempenho de seus alunos em determinada disciplina ou projeto. Esta função, permeia as várias faces do desenvolvimento da criança, que independentemente de sua faixa-etária, busca ser acolhido em suas questões sobre si e sobre o mundo que a cerca. Mas será, que em algum momento, na nossa prática educacional diária, não estamos deixando de olhar para o que circunda o desenvolvimento de nossos alunos? É preciso adotar uma visão holística de educação, enxergar de fora, para entender quem é esta pessoa que Casteneda nos mostra. Quem é este professor? Quem é ou quem são estas pessoas que auxiliam a criança a “perceber o mundo”? Será que este é um papel exclusivo do professor? Em uma rápida observação numa sala de educação infantil, é possível saber que não. É fundamental sistematizar esta visão, no sentido, de colocá-la em pauta, trazer à tona o fato de que é preciso mais que um professor para mostrar o mundo a uma criança. E dentro da escola? Quem é responsável pela educação?

Faço minhas, as palavras de um discurso que ouvi no inicio do ano e defendo que a escola é um organismo vivo, pulsante, lugar de profunda reflexão e busca de conhecimento – e não de reprodução de conteúdos e informações inertes à vida de quem nela existe e a ela vivencia. Se este não é um lugar de simples reprodução, por que o papel do professor seria único nesta complexa tarefa de educar? Se acreditamos, que a escola é um lugar, ou um dos lugares, onde a criança é capaz de descobrir o mundo. E se, cada um de nós, ao entrar em contato com uma criança, com suas próprias visões de vida e do que é belo, pode contribuir para que a criança construa – não de uma forma engessada e pronta – sua própria maneira de assimilar o mundo e a vida. Por que centralizar esta tarefa em apenas uma pessoa?

É preciso enxergar com mais delicadeza esse fio que conecta desde a equipe de manutenção de uma escola à sua direção. Fazer sabido que, uma escola não é feita apenas de professores, coordenadores, direção e alunos. Há uma equipe, por trás da sala de aula, que permite que a educação aconteça e ela FAZ e precisa FAZER educação junto de nós. Se pregamos uma filosofia, não teoria, mas filosofia – que permeia a vida e não somente práticas – e não partilhamos ela com a inspetoria, agentes de limpeza, estagiários, auxiliares, agentes de manutenção, cozinheiros, etc. Então, para quê eles estão lá? Se alguém, de alguma forma permeia o cotidiano desta criança na escola, seja de forma direta ou indireta, esta pessoa precisa de atenção e precisa estar à par do que se deseja de sua função dentro da comunidade escolar. Será que esta invisibilidade que atribuímos, as vezes por descuido, a algumas funções dentro de nosso contexto, não é negligente com a visão de educação que defendemos?

É preciso mais. É preciso ir além. Partilhar visões de vida e de mundo, integrar a equipe de fato, para que todos possam co-participar e contribuir, dentro de suas funções para que este organismo se mantenha: vivo e pulsante. Elitizar o ato de educar, como se fosse um tesouro de deuses, e não de pessoas que compartilham uma filosofia, não é o caminho para uma sociedade justa, democrática, cidadã. Faz-se urgente a necessidade de parar de tratar, em pequenos diálogos, que parecem banais, mas que também fazem parte do ato de educar, alguns setores dentro da escola como secundários.

Não há educação se todos não estiverem engajados no mesmo sentido, direção e visão. Precisamos pensar coletivo se queremos que nossos alunos assim pensem. Precisamos desenvolver uma visão holística, empática e justa de nossa escola se queremos que nossos alunos ajudem a contribuir para uma sociedade mais igualitária. Não é objetivo desta reflexão descentralizar o papel do professor, que está claro para todos nós. Mas reconhecer e evidenciar a importância de todos dentro deste contexto rico de experiências. É preciso pensar na sociedade que queremos , -e aí que não podemos dissociar a utopia da educação – para corporificar a escola que precisamos.

Keila Vieira